09 de Outubro de 2008

Fernando PessoaNão sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

 

Atento ao que eu sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

 

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu"?
Deus sabe, porque o escreveu.

 

Fernando Pessoa

 

Autora Menina Filipa às 21:28

v.:
O poema é simplesmente lindo.. dei.o hoje na aula de português. Pessoa é de facto um génio!!!

Beijinhos
10 de Outubro de 2008 às 18:44

Lipa:
Esse homem é divinal a escrever

Beijinhos*
11 de Outubro de 2008 às 19:37

Filipa =D
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